
A baixa autoestima nem sempre aparece como insegurança evidente.
Às vezes, aparece numa mulher competente, produtiva, independente e aparentemente muito segura. Ela trabalha, resolve problemas, cuida de tudo e raramente deixa transparecer fragilidade.
Mas precisa de continuar a fazer tudo muito bem para conseguir sentir que tem valor.
E é justamente por isso que algumas formas de baixa autoestima passam despercebidas durante anos: por fora, parecem competência. Por dentro, existe uma avaliação permanente de si própria.
Existe uma diferença importante entre gostar de fazer bem e precisar de fazer bem para se sentir suficientemente boa.
No segundo caso, o desempenho deixa de ser apenas desempenho. Torna-se uma medida de valor pessoal.
Um erro deixa de significar “errei” e começa a significar “não sou suficientemente boa”.
Uma crítica deixa de ser apenas uma opinião ou informação sobre algo que fez e transforma-se numa ameaça à forma como se vê.
Uma rejeição deixa de significar simplesmente que alguém não escolheu aquela relação e parece confirmar alguma coisa dolorosa sobre quem se é.
A autoestima torna-se, assim, muito dependente do que acontece fora.
Quando existe reconhecimento, a pessoa sente-se melhor consigo. Quando falha, é criticada ou não corresponde às próprias expectativas, o valor pessoal também desce.
Nem todo o perfeccionismo nasce apenas da ambição ou do gosto por fazer as coisas bem.
Em alguns casos, existe uma tentativa constante de evitar crítica, rejeição, desaprovação ou vergonha.
Se eu fizer tudo corretamente, talvez ninguém possa apontar uma falha.
Se eu for indispensável, talvez não me abandonem.
Se eu tiver sucesso suficiente, talvez finalmente me sinta suficiente.
O problema é que essa linha de chegada tende a afastar-se.
Uma conquista produz satisfação durante pouco tempo. Logo aparece uma nova meta, uma nova comparação ou alguma coisa que ainda poderia ter sido melhor.
Não existe propriamente descanso, porque o desempenho passou a cumprir uma função emocional: provar valor.
Ser cuidadosa, disponível ou atenta aos outros não é um problema.
A questão muda quando deixar alguém descontente provoca ansiedade, culpa ou medo de rejeição.
Nesse caso, agradar deixa de ser apenas uma escolha e começa a funcionar como uma estratégia para preservar relações e sentir-se segura dentro delas.
Isso pode aparecer em comportamentos como:
Por fora, pode parecer disponibilidade.
Por dentro, frequentemente existe medo de desiludir.
Para algumas pessoas, a aprovação dos outros transforma-se numa espécie de termómetro emocional.
Enquanto todos parecem satisfeitos, existe tranquilidade.
Basta alguém responder de forma mais fria, discordar ou demonstrar desagrado para começar uma sequência de pensamentos:
“Será que fiz alguma coisa?”
“Será que ficou chateado comigo?”
“Será que devia ter dito de outra forma?”
“E se estiver a pensar mal de mim?”
O problema não é apenas preocupar-se com as relações. Isso é humano.
O problema surge quando o estado emocional das outras pessoas começa a determinar excessivamente a forma como alguém se sente consigo própria.
A autoestima fica permanentemente negociada nas relações.
Um dos sinais mais interessantes deste padrão aparece quando a pessoa finalmente consegue aquilo que procurava.
Recebe o elogio.
Consegue a promoção.
É reconhecida.
Alguém confirma que fez um bom trabalho.
E sente-se melhor.
Mas por pouco tempo.
Pouco depois, surge uma nova exigência.
Isso acontece porque a validação externa consegue produzir alívio, mas dificilmente consegue estabilizar uma crença interna de insuficiência.
Quando existe uma ideia profunda de que é necessário provar constantemente o próprio valor, nenhuma conquista encerra definitivamente a questão.
A próxima prova começa pouco depois.
Existe uma versão bastante superficial de autoestima que a reduz a gostar da própria aparência, enumerar qualidades ou repetir frases positivas diante do espelho.
A autoestima psicologicamente saudável é bem menos glamorosa e muito mais importante.
É conseguir preservar uma noção razoavelmente estável do próprio valor mesmo quando falha.
É tolerar que alguém não concorde consigo sem imediatamente questionar quem é.
É conseguir receber uma crítica sem transformar uma falha específica numa condenação global de si própria.
É estabelecer um limite sem precisar concluir que se tornou egoísta.
É não precisar de excelência constante para justificar o próprio lugar.
Uma autoestima mais sólida não elimina inseguranças. Ela impede que cada insegurança tenha poder para redefinir quem somos.
Se sente que precisa constantemente de corresponder às expectativas, tem dificuldade em lidar com críticas, exige demasiado de si própria ou percebe que grande parte das suas decisões é orientada pelo medo de desiludir os outros, pode ser importante compreender o que sustenta esse padrão.
Na psicoterapia, o trabalho não consiste simplesmente em substituir pensamentos negativos por pensamentos positivos.
É possível investigar como determinadas crenças sobre valor, aprovação, desempenho e rejeição foram construídas e como continuam a influenciar escolhas, relações e comportamentos no presente.
Muitas vezes, aquilo que hoje aparece como perfeccionismo, necessidade de controlo ou dificuldade em dizer não foi, em algum momento da vida, uma forma de conseguir segurança, reconhecimento ou pertença.
O problema não é ter aprendido essas estratégias.
É continuar dependente delas quando já começam a custar demasiado.
Na LUMA, trabalhamos a autoestima para além do discurso de “gostar mais de si”. O objetivo é construir uma relação consigo própria que não dependa permanentemente de desempenho, aprovação ou perfeição.
A LUMA Psicologia Clínica realiza acompanhamento psicológico individual focado em autoestima, autocrítica, perfeccionismo e relações, online e presencialmente no Porto.