Quando a maternidade apaga a mulher: “Eu amo o meu filho, mas já não sei quem sou”

Olivia Rhye
11 Jan 2022
•
5 min read

Há uma experiência comum entre muitas mulheres depois da maternidade que raramente aparece nas fotografias: olhar para a própria vida e perceber que tudo continua a funcionar, mas já não saber exatamente onde ficou a mulher que existia antes dos filhos.

Ela está ali. Trabalha, organiza a casa, marca consultas, pensa nas refeições, lembra-se do que falta comprar, gere horários, responde a mensagens e cuida de toda a gente.

Mas, quando alguém pergunta do que ela gosta, do que deseja ou do que precisa, a resposta já não surge com a mesma facilidade.

Tornar-se mãe também é uma transformação de identidade

A maternidade não acrescenta apenas um novo papel à vida de uma mulher.

Ela reorganiza prioridades, relações, corpo, rotina, liberdade, carreira, sexualidade e a própria percepção de quem se é.

Por isso, é possível amar profundamente um filho e, ao mesmo tempo, sentir falta da mulher que existia antes dele.

Essas duas experiências não são incompatíveis.

O problema começa quando a ideia de “boa mãe” exige que a mulher deixe de ter necessidades próprias.

Quando tudo passa a ser sobre os outros

A perda de identidade materna raramente acontece de um dia para o outro.

Ela instala-se em pequenas renúncias.

Primeiro deixa-se um compromisso porque o bebé precisa. Depois adia-se algo pessoal porque não há tempo. O descanso fica para depois. O exercício fica para depois. Os amigos ficam para depois. A relação fica para depois.

E, durante algum tempo, isso pode até fazer sentido.

A dificuldade aparece quando o “depois” se transforma numa forma permanente de viver.

A mulher deixa de perguntar “o que quero?” e passa a organizar a vida quase exclusivamente em torno de “o que é preciso fazer?”.

A sobrecarga que ninguém vê

Existe ainda uma parte importante da maternidade que não aparece numa lista de tarefas: a carga mental.

Não é apenas fazer.

É lembrar, antecipar, organizar, decidir e preocupar-se.

É saber quando acaba o leite, qual é o próximo compromisso da criança, se é preciso comprar roupa maior, quando marcar a consulta, o que levar para a escola e quem vai buscar.

Quando esta responsabilidade permanece constantemente ativa, o cérebro dificilmente entra verdadeiramente em descanso.

É por isso que algumas mães dizem: “eu até tenho ajuda, mas continuo exausta”.

Nem sempre falta ajuda para executar tarefas.

Às vezes, falta alguém com quem dividir a responsabilidade de pensar nelas.

“Mas eu escolhi ser mãe”

Esta frase mantém muitas mulheres presas à culpa.

Como se desejar um filho significasse ter de gostar de todas as consequências da maternidade.

Não significa.

Podemos escolher uma vida e, ainda assim, sentir o peso de partes dela.

Podemos amar alguém e precisar de espaço.

Podemos estar gratas e cansadas.

Podemos ser mães profundamente envolvidas e continuar a precisar de uma identidade que não termine na maternidade.

Alguns sinais de que existe pouco espaço para si

Talvez não exista uma grande crise.

Às vezes, a perda de identidade aparece de forma muito mais silenciosa:

  • sente culpa quando faz alguma coisa apenas por si;
  • já não sabe responder ao que lhe dá prazer;
  • irrita-se frequentemente e depois sente culpa;
  • sente que todos precisam de alguma coisa de si;
  • tem dificuldade em delegar;
  • sente saudades da pessoa que era;
  • percebe que a relação, as amizades ou os interesses pessoais desapareceram da rotina;
  • vive grande parte dos dias em piloto automático.

Nenhum destes sinais, isoladamente, define um problema psicológico. Mas, quando se tornam persistentes, merecem atenção.

Recuperar-se não significa voltar a ser quem era

Existe uma armadilha na ideia de “voltar a ser eu mesma”.

Depois da maternidade, talvez não exista exatamente uma mulher antiga à espera de ser recuperada.

Há uma nova identidade a construir.

A questão passa a ser: quem sou eu agora, incluindo a maternidade, mas não limitada a ela?

Esse processo pode envolver recuperar interesses, estabelecer limites, redistribuir responsabilidades, voltar a investir em relações importantes e reconhecer necessidades que foram silenciadas durante demasiado tempo.

Não para retirar espaço aos filhos.

Para devolver espaço à mulher que também existe naquela família.

Quando procurar apoio psicológico

Quando a culpa, a irritabilidade, a exaustão, a ansiedade ou a sensação de desaparecimento começam a dominar a experiência materna, a psicoterapia pode ajudar a compreender o que está a sustentar esse sofrimento.

Na LUMA, o acompanhamento psicológico na maternidade não parte da ideia de ensinar uma mulher a ser uma “mãe melhor”.

O trabalho é mais profundo: compreender a mulher que existe por trás do papel de mãe, os padrões de exigência que carrega, a forma como aprendeu a cuidar dos outros e o espaço que consegue, ou não, reservar para si.

Porque uma mulher não precisa desaparecer para que uma mãe exista.

Na LUMA Psicologia Clínica, realizamos acompanhamento psicológico especializado em saúde mental materna, online e presencialmente no Porto.

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